A laje Misteriosa de Beth She Arim

A laje Misteriosa de Beth She’Arim

Beth She’Arim era um cemitério localizado na Galiléia. Ao lado das catacumbas existia uma caverna que há muito tempo atrás foi utilizada como uma grande cisterna para armazenamento de água. Esta aparentemente caiu em desuso no século IV e foi preenchida parcialmente por uma camada de cerca de 1,5 metro de cascalho.

Em 1956, decidiram converter a caverna em um pequeno museu. Um trator iniciou a limpeza dos entulhos e inesperadamente atingiu algo grande e rígido que sequer se moveu. Este objeto semelhante a uma grande laje de concreto foi deixado e o piso ao seu redor pavimentado com pedras chatas.

A laje mede aproximadamente 2,0 por 3,3 metros com 0,5 metro de espessura e sua parte superior esta perfeitamente nivelada.

Em 1963, membros de uma expedição de pesquisadores estavam estudando a região em busca de possíveis restos de antigas fábricas de vidro. Alguém sugeriu que a laje de Beth She’Arim podia ser feita de vidro. Embora fosse totalmente improvável, uma análise foi realizada e, surpreendentemente, confirmou-se, de fato, ser constituída de vidro.

Nos anos seguintes um cuidadoso exame da laje, com escavações ao seu redor, evidenciou aos arqueólogos que ela estava no mesmo local desde o final do século IV.

Houve, evidentemente, muitas especulações sobre qual seria o propósito de se produzir uma peça tão grande em vidro, mas após as escavações a resposta ficou clara.

Seja quem for que a tenha feito há 1600 anos não estava fazendo um artefato em vidro, mas sim produzindo o vidro como material.

A produção de vidro nos tempos antigos frequentemente era realizada em duas etapas. Na primeira se realizava a fusão das matérias-primas em torno de 1100oC, temperatura suficiente para ocorrerem todas as reações da fusão e produzir uma massa fundida que ao se esfriar gerava o vidro. Na segunda etapa, os pedaços de vidro assim obtidos, sem formas definidas e constituindo o que hoje chamamos de caco, eram transportados para pequenas fábricas que através de novo aquecimento, agora a temperaturas inferiores, eram amolecidos e transformados em objetos úteis.

Esta segunda fase da produção podia acontecer tanto nas vizinhanças como em locais muito afastados da origem do vidro inicial.

Um fato espantoso sobre esta descoberta é o tamanho da peça. Ela pesa em torno de 9 toneladas. Quando descoberta era a terceira maior peça de vidro produzida pelo homem, e há 1600 anos! As outras duas tinham sido produzidas no século XX.

Para obtê-la se estima que foram necessárias 11 toneladas de matérias-primas e mais 20 toneladas de madeira para o aquecimento.

Outra curiosidade despertada foi qual a razão dela  não ter sido utilizada como material, como se intencionava, e, ao invés, abandonada no local de produção.

Esta pergunta os pesquisadores também conseguiram responder. Há evidências que parte do teto do forno tenha caído dentro do banho fundido. Isto aumentou o teor de cálcio no vidro e ocasionou um defeito, chamado devitrificação, que fez o vidro ficar opalizado, sem a transparência que se buscava. Provavelmente devido a isto todo o lote foi rejeitado.

Laje de Beth She’ArimFoto da laje de Beth She’Arim.
Fonte: Catalogue of Anglo-Saxon Glass in the British Museum

Fontes:  Corning Musuem of Glass  http://www.cmog.org/
Catalogue of Anglo-Saxon Glass in the British Museum

Mauro Akerman
Abril 2017

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